Como eu contei lá no
Colherada Zen, todos temos uma historinha Lado B. E a minha seria até engraçada se não fosse tão
insaudável. Ok, comecemos pelo drama, para minha total purificação:
Eu fui bulímica por uns bons aninhos gordos. De enfiar escova de dente goela abaixo e tudo. Nem parece né, eu sou tão ajuizada (risos e cochichos). Tudo começou quando eu tinha uns 12 anos, na piscina do clube. Eu já havia parado com a ginástica olímpica há uns 2 anos, era magrinha e atlética até que minha tia Menarca me deu dois melões frontais e uma melancia traseira consideráveis. Mas eu era feliz assim, tamanha baleinha. E como uma pequena jubarte, eu nadava contente no clube, quando uma colega minha reparou bem e comentou: "Nossa, Manuca, tu já tem celulite!".
Como diria a bela cantora Maysa, "Meu mundo caiiiiiuuuuuu".
Eu retruquei, óbvio: "Celulite tem é o seu cérebro, sua baba, gosma, coisa!". No xingamento, leia-se "só queria nadar em paz".
Bem, os 12 aninhos femininos são complicados. Primeiro beijo (baba, gosma, coisa), primeiro 4,5 em matemática, primeiras muitas coisas. Meu apelido na época era
air bag duplo, ah, imagina só o porquê! Eu não dava muita importância para meu excesso de dobras valiosas, eu só queria me divertir, curtir meu fim de infância. Mas um comentário ínfimo foi o suficiente para distorcer minha cabecinha em formação e eu passei a trocar Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Pedro Bandeira, H. C. Andersen, os Grimm e Cecília Meireles (uma criança prodígio) por Capricho, Atrevida, Antenada e Cláudia (uma criança com um chocolate Prestígio). Estava agora gordinha, bobinha e cheia de caraminhola na cabeça. Só pensava em Nick Carter dos Backstreet Boys e em emagrecer a todo custo, nem que para isso eu tivesse que passar minha 6ª série inteira comendo pão e bebendo água.
Começaram meus transtornos alimentares. Eu olhava aquelas revistas e só via loirinhas lindinhas, magrinhas e de namoradinhos incríveis. E eu aquela coisinha simpática, engraçada, legal, feinha e sozinha. Queria parar de comer, era a solução! Mas eu nunca conseguia. Ao contrário! Cada vez que tentava parar de comer, emagrecer, a idéia de comida crescia em mim, se tornava um monstro terrível que me obrigava a comer cada vez mais. Não dava para ser só um brigadeiro, um só sanduíche, uma só fatia de bolo. Tinha que ser o bolo inteiro. Mas, e depois? Só arrependimento, chororô; eu tinha que me livrar daquele sentimento e daquela barriga gigante de muito bolo e pouco suco gástrico. Mas, o que fazer?
Claro! Como eu não havia pensado nisso antes! É só tomar água quente, colocar o dedo na garganta, ficar de cabeça pra baixo, engolir uma escova de dentes! Tudo vai embora, até não sair nem a bile. Ficou tudo mais fácil. Eu podia agora usar aquele short da minha amiga. Cabe em mim! Só alegria...
Ai, como eu amava comer e cantar! Comia, comia comia, vomitava às vezes, outras não(quando não conseguia, acabava ferindo o meu rosto...). Mas cantava sempre! Fazia aulas, cantava bem! Queria acompanhar meu violão. E aí o tempo foi passando, eu fui me aprimorando em comer e vomitar e não havia mais espaço para minha voz.
Era segundo plano agora. E ela foi ficando esquecida, empoeirada, vomitada. Arranhada. Fraca.
Dolorida...
Fui aos poucos perdendo o que mais amava. Era rídiculo, mas era um sacrifício e minha recompensa era não ser mais apresentada aos amigos de minhas amigas e ser ignorada, considerada uma feinha simpática. Aqueles garotos que me atraíam, os da revista: Os do skate, do surf, os bonitões, os tímidos, os românticos, os impossíveis, os inexistentes. Como era divertido ir àquelas festas, àquelas boates e só ficar olhando, analisando o comportamento masculino porque era o mais perto que eu poderia chegar, a gordinha simpática e esperta. Eu não fazia o tipo daqueles que faziam o meu.
Eu fui ficando mais velha, parei de ler aquelas bobagens, parei de olhar para aqueles garotos. Fui tomando gosto pelas viagens, pelo teatro (meu mais fiel amante), pela leitura produtiva. Aos sete anos de idade eu escrevi minha primeira música. Sobre o quê? Claro, garotos e comida, lógico.
Minha avó e minhas coleguinhas de classe foram as únicas testemunhas da minha primeira catarse musical. Mas nessa época, aos 13, eu já sabia falar inglês, e passei a jogar tudo ali, nos papéis. Escrevia em inglês, em português, mais velha fui começando a esboçar bobagens em francês. Ali era um lugar sagrado para mim. Não tinha vergonha de nada, só orgulho. Meus amigos admiravam meu talento. Cantava nas festinhas, nas viagens, eles viam o que eu escrevia e amavam. Minha auto-estima foi se recuperando aos poucos...

Dezesseis anos, primeiro ano do ensino médio, ainda bulímica, e mais cantora. Agora eu usava óculos, tinha cara de esperta. Escrevi muito nessa época, vomitei pouco. Fui melhorando sozinha, não fazia a menor ideia do que eu tinha, não possuía mais computador, quebrou na sétima série, não tinha acesso a essas informações. Aos 17 eu valoriazava o que tinha que ser valorizado: Eu mesma. Minhas compulsões foram embora, apesar da minha obcessão por comida ainda permanecer. Tenho até uma plasticidade em relação às palavras desde pequena! Muitas palavras me dão a sensação de comida na hora em que penso nelas. Por exemplo, a palavra "penso" = queijo prato derretido. Cláudia = caldinho de feijão; Júlia = almôndegas de soja; Paula = bolinho de provolone; Daniel = Foundue de chocolate. Sério, eu tenho um problema.
Acho até que já havia comentado aqui sobre isso antes. É engraçado. Mas voltando, eu emagreci naquela época com a ajuda de endocrinologistas. Na faculdade, descobri que sou DDA. Minha ansiedade, hiperatividade e imaginação tinham que ter vindo de algum lugar. Desde então vivo na sanfona: Emagreço e engordo. A bulimia se foi, o binge não. Ainda tenho uns ataques loucos (saiam da minha frente, liberem a geladeira, passem a mostarda!!! - algo assim). Em 2008 emagreci 10 quilos e engordei 9. É por aí. Mas minha auto-estima é outra. Desde que ingressei na faculdade não tive mais problemas com os garotos de qualquer tipo (Ó céus, por que será? Será a auto-estima o segredo do universo?), só com a comida visto que inventei de estudar gastronomia.
Graças à Deus me tornei vegetariana, e meu ponto de vista em relação à comida começou a esboçar uma mudança. Penso mais em nutrição. Minha voz continua a mesma (iupi!), mas agora eu entrei na toca novamente. Meu bloqueio com comida vôou (novas regras do português: lasquem-se) longe e atacou outra área; morro de vergonha de cantar em público e de mostrar minhas letras. E olhem que são muito boas, viu? Droga, isso nunca tem fim.
Enfim, lá se foi tudo.
Joguei tudo aqui de novo. Mais tarde leio e escrevo uma música legal naipe Alanis Morissette falando de seus traumas sexuais (mais risos e cochichos).
Esse é um dos meus lados "B". Enjoy the drama e não se preocupem: Eu não tenho tendências suicidas, ok?
Peace out!
NEXT!!!