sábado, 14 de junho de 2008

Como Livrar Uma Mesária de Sê-la?



Alguma sugestão?


Tudo começou quando eu acompanhava meus pais e avós nas eleições durante toda a minha infância em Casa Forte. Eu gostava de esperar na fila, de seguir até as urnas e fechar os olhos para não ver em quem estavam votando (para não perder a emoção eu abria um só). Pessoas nas ruas super empolgadas com o quê eu não fazia idéia! Mas gostava da baderna, do barulho, dos adesivos e da Praça de Casa Forte colorida de partidos. Política e democracia nem passavam perto da minha imaginação; todavia, de Mafalda eu tive muito: Questionava por que o sorvete é gelado aqui em Recife, e por que o sol é quente no Pólo Sul, e também por que minha boneca da Pocahontas era tão barata (módicos oitenta reais e oitenta e oito centavos. Eu dei um escândalo no Hiper Bompreço dizendo o quanto minha boneca fofa foi "baratíssima"). Mas se Collor havia surrupiado minha poupança da futura faculdade, ou onde estavam os mísseis da Coréia, não, isso não.

O que eu nunca gostei de ver era aquele pessoal com cara de tacho sentado nas mesinhas de escola e com um cachorro-quente minúsculo na mão. Vovó me dizia que eram os mesários.

"Oh! Os Mesários!"

O tempo foi passando, e eu reconhecendo que após todos os anos, aquela simpática "Horda de Ouro" não sofria alterações. Lembrava do bigodudo, da mocinha, da coroa. Vovó dizia que tínhamos uma vizinha que todos os anos era mesária. Aí danou-se! Na minha cabecinha formou-se a concepção de uma passagem, um rito compulsório e formidável feito um Bar Mitzvah às avessas. Toda a sociedade “Pracense de Casa Forte” teria que passar pelo sacrifício do dever civil. Eu quero que o dever civil se lasque! Meu dever é reciclar, ser gentil com o cobrador, dar bom dia, atravessar velhinhas nas ruas esburacadas do meu prefeito amado, praticar o exercício da honestidade nesse mundo tão ávido por grana, detestar grana, não gozar com a cara dos militares em marcha (em voz alta), não jogar ovos no TRE e também, a pedidos do meu amigo blogueiro Walmir, não explodir o Congresso porque muitos lutaram e morreram por ele! Eu acredito no trabalho voluntário, aí sim. País democrático uma minhoca morta!


Enfim. Quem mandou eu reclamar? Quem mandou eu ficar revoltada antes do tempo, antes de largar a chupeta, heim? Toma aí! Muitos anos se passam até que meu vovô liga informando que chegou uma carta da Quinta Zona para mim. Eu disse: “abre aí, ‘vôvz’”. Ele mal começa a ler e minha ficha já caiu. “NÃO!”. Sim. “NÃO!”. Sim.


Bolas. Fui convocada. Eu me sinto uma menina de dez anos que ficou em recuperação. Mas que saco, que fora de hora! Aposto que se não fosse obrigatório, eu iria com prazer (mentira gritante). Tá bom, eu não, mas um montão de gente que eu conheço sim. O importante agora é arquitetar um estratagema para escapar ilesa da situação análoga à escravidão! HÁ! Crime! (Eu exagero).

Primeiramente pensei em uma camisa mal-criada. Alguma frase de efeito lacrimogêneo: “Político Morto Não Rouba”, li em um fórum outro dia; “Paguem o Mesário”; “Emocracia”; “Picas pro Governo”; “Votem Rápido”; “Mesário Voluntário é Otário” ou “Favor, Dicas do Que Fazer Com o Vale Dez Reais Que o TRE Me Pagou”. Claro, ser mesário é obrigatório e por “puro amor à Pátria”, sendo assim ninguém recebe por isso. A vantagem é o dobro do dia perdido em folgas. Para quem trabalha. E para quem estagia, serve? E para quem NÃO estagia, serve também? De consolo. Mais vantagens? Claro: Não ser presa, não ter seu passaporte cassado, não pagar um salário mínimo de multa, não ser barrado em concursos públicos, não sofrer um processinho. Ah, agora eu quero!


Eu não fujo de trabalho, adoro trabalhar. Quando eu quero. “Menina mimada não quer ser mesária”; quero não, pergunta se sua mãe quer! Desculpem, nunca envolvam as mães que elas sempre pagam o pato. O pior é servir a algo que não acredito. Como vai ser no dia? Será que vou chegar bêbada, maltrapilha, chutando tudo, cheia de tatuagem de caneta, pseudopiercing nos mamilos, de cabelo raspado, com uma seringa dependurada no meu antebraço? Não, oras. Vou chegar com quinze minutos de antecedência, ser simpática com todos os Cavalcanti e Cavalgados, explicar do melhor jeito possível àqueles que mal sabem assinar os nomes, mas votam e vou recolher meus dez reais e comer um cachorro-quente sem salsicha da esquina. Não pretendo descontar minha revolta nos demais pobres coitados que de certa forma, também estão sendo obrigados a estar ali. Viva a panelada!



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